Guia prático por preparo e ponto de fumaça
Se você trabalha em cozinha (ou frita em casa com frequência), a dúvida é sempre a mesma: qual óleo usar para cada técnica sem queimar, sem amargar e sem virar fumaça. Este guia organiza os óleos e gorduras mais comuns na cozinha brasileira, explica o que é ponto de fumaça e traz uma ficha técnica prática para você decidir rápido, seja na fritadeira do restaurante, seja na panela de casa. No fim, ainda tem um lembrete objetivo sobre o destino correto do óleo usado.
O que é ponto de fumaça e por que isso importa tanto
Ponto de fumaça é a temperatura em que o óleo começa a soltar as primeiras fumaças visíveis. Quando isso acontece, o óleo está se degradando: o sabor muda, a cor tende a escurecer e a qualidade cai.
Na prática, o ponto de fumaça funciona como um limite de segurança culinária. A regra simples é: se fumou, já passou do ponto útil. Em cozinha profissional, isso vira padrão operacional porque reduz desperdício, evita sabor ruim e ajuda a controlar riscos.
Vale um detalhe importante: o ponto de fumaça não é um número fixo universal. Ele varia conforme refino, acidez e impurezas. Óleos refinados costumam ter ponto de fumaça mais alto; óleos “virgens” e extra virgens, mais baixo.

Como escolher: primeiro a técnica, depois o óleo
Antes de olhar marca, preço ou modismo, defina o que você vai fazer. Em cozinha profissional, isso separa “óleo que aguenta o serviço” de “óleo que perfuma o prato”.
Refogar e saltear (fogo médio)
Você quer estabilidade e rotina. Óleos neutros funcionam bem porque não brigam com o sabor da comida. O azeite extra virgem entra aqui, desde que você não transforme a frigideira num vulcão.
Assar e grelhar
O forno e a chapa pedem gordura que suporte calor e entregue textura. Dependendo do prato, ghee, banha e sebo podem ser escolhas excelentes, além dos vegetais refinados.
Fritura (imersão e fritadeira)
Aqui a conversa é técnica e direta: fritura trabalha numa faixa alta e constante. Em geral, busca-se operar entre 160°C e 180°C, mantendo controle para não ultrapassar o limite e evitar fumaça. Óleos com ponto de fumaça mais alto e perfil mais estável costumam performar melhor.
Finalização e preparos frios
O ponto de fumaça deixa de ser protagonista. A prioridade vira sabor e aroma: azeite extra virgem, gergelim e alguns óleos mais aromáticos funcionam muito bem, mas não são “óleo de guerra” para fritadeira.
Adendo doméstico: em casa, o erro mais comum é “subir o fogo para acelerar”. Isso derruba qualquer óleo. Se você não usa termômetro, use o olho: não deixe chegar a fumaça.
Tabela comparativa: tipos de óleo
Os valores abaixo são faixas práticas. Mudam com refino, qualidade e impurezas.
| Óleo/gordura | Origem | Ponto de fumaça (aprox.) | Melhor para |
| Soja (refinado) | soja | 210–240°C | fritura e dia a dia |
| Girassol (refinado) | girassol | 225–232°C | fritura e empanados |
| Milho (refinado) | milho | 226–230°C | fritura, neutro |
| Canola (refinado) | canola | 204–230°C | coringa, fritura moderada |
| Amendoim (refinado) | amendoim | 230–232°C | fritura intensa |
| Algodão (refinado) | algodão | 215–228°C | fritadeira profissional |
| Abacate (refinado) | abacate | ~270°C | calor alto, selar |
| Azeite extra virgem | azeitona | 160–190°C | refogar leve, finalizar |
| Azeite refinado | azeitona | 200–230°C | calor mais alto |
| Coco virgem | coco | ~176°C | fogo baixo, confeitaria |
| Coco refinado | coco | ~232°C | calor alto, neutro |
| Ghee | manteiga clarificada | ~250°C | chapa, fritura, sabor |
| Banha | porco | ~190°C | fritura, massas |
| Sebo bovino | boi | 210–250°C | fritura e textura |
Fichas técnicas dos óleos e gorduras mais usados
Abaixo, o guia que importa para você conhecer os tipos de óleo mais usados: ficha curta, indicação clara e um comentário “de cozinha” para quem decide em tempo real.
Óleo de soja (refinado)
Ponto de fumaça: 210–240°C
Sabor: neutro
Melhor para: fritura; refogar em volume; preparo padrão de produção
Evite quando: você quer aroma marcante (finalização)
Curiosidade de gôndola: é um dos óleos mais comuns e versáteis. Em operação profissional, funciona bem pela neutralidade e custo, mas exige controle de temperatura como qualquer outro.
Dica caseira: ótimo “óleo de rotina”. Só não deixe queimar e não reaproveite até escurecer demais.
Óleo de girassol (refinado)
Ponto de fumaça: 225–232°C
Sabor: neutro a levemente perceptível
Melhor para: empanados; frituras mais sequinhas; peixes e frango
Evite quando: a cozinha está com óleo muito sujo (resíduos derrubam performance)
Curiosidade de gôndola: é bem usado em operações que buscam fritura com sabor limpo. Refinado costuma ir melhor para alta temperatura do que versões menos processadas.
Dica caseira: funciona muito bem para batata e empanados, desde que você mantenha a temperatura e não deixe chegar a fumaça.
Óleo de milho (refinado)
Ponto de fumaça: 226–230°C
Sabor: neutro
Melhor para: fritura; refogar; produção com perfil “sem interferência”
Evite quando: você quer sabor de azeite, manteiga ou gordura animal
Curiosidade de gôndola: é um óleo “de serviço”: não chama atenção, o que é uma qualidade quando o prato é o protagonista.
Dica caseira: bom para quem não quer “cheiro forte” de fritura tão marcado, mas a ventilação ainda manda.
Óleo de canola (refinado)
Ponto de fumaça: 204–230°C
Sabor: neutro
Melhor para: refogar; grelhar leve; fritura moderada
Evite quando: a operação exige calor muito agressivo e constante sem boa filtragem
Curiosidade de gôndola: em muitas cozinhas, é o coringa do dia a dia. Funciona bem, mas a estabilidade depende de qualidade e controle.
Dica caseira: costuma ser fácil de usar e perdoa mais o dia a dia, desde que você não “torre” a panela.
Óleo de amendoim (refinado)
Ponto de fumaça: 230–232°C
Sabor: pode ser levemente perceptível (varia)
Melhor para: fritura intensa; cozinhas que trabalham com alta temperatura e agilidade
Evite quando: há alergias no ambiente ou risco de contaminação cruzada
Curiosidade de gôndola: muito usado em frituras porque aguenta bem o calor e entrega boa textura.
Dica caseira: excelente para batata, mas atenção total a alergênicos se houver crianças ou visitas.
Óleo de algodão (refinado)
Ponto de fumaça: 215–228°C
Sabor: neutro
Melhor para: fritadeiras e operações de grande fluxo
Evite quando: você quer um óleo mais “conhecido” pelo público final (marketing do prato)
Curiosidade de gôndola: aparece menos em casa, mas é bem presente em bastidores profissionais pela neutralidade e desempenho.
Dica caseira: se você encontrar e usar, trate como óleo de fritura: controle de temperatura e descarte no tempo certo.
Óleo de abacate (refinado)
Ponto de fumaça: ~270°C
Sabor: neutro (quando refinado)
Melhor para: selar carnes; chapa; calor alto
Evite quando: o custo não fecha para fritura de volume
Curiosidade de gôndola: entra como opção técnica para alta temperatura. Não é “mágico”, é só estável quando refinado.
Dica caseira: útil para grelhar e selar sem fumaça cedo, mas não vale “torrar” por descuido.
Azeite de oliva extra virgem
Ponto de fumaça: 160–190°C (varia)
Sabor: marcante, aromático
Melhor para: finalizar; molhos; refogar em fogo moderado; legumes e proteínas delicadas
Evite quando: fritura por imersão e temperaturas muito altas
Curiosidade de gôndola: o extra virgem é mais sensível ao calor alto. Em fogo moderado, pode ser excelente, mas a mão do cozinheiro decide.
Dica caseira: dá para usar no fogão, sim, desde que você não passe do ponto e não deixe fumar.
Azeite de oliva refinado
Ponto de fumaça: 200–230°C (varia)
Sabor: mais neutro
Melhor para: refogar; grelhar; calor mais alto do que o extra virgem
Evite quando: o objetivo do prato é sabor de extra virgem na finalização
Curiosidade de gôndola: é a opção para quem quer “azeite no fogo” com mais folga térmica.
Dica caseira: bom para quem gosta de cozinhar com azeite, mas não quer brigar com fumaça cedo.
Óleo de coco (virgem e refinado)
Virgem – ponto de fumaça: ~176°C | sabor: coco evidente
Refinado – ponto de fumaça: ~232°C | sabor: bem mais neutro
Melhor para:
• Virgem: confeitaria, fogo baixo, receitas que pedem aroma
• Refinado: calor mais alto e uso mais “técnico”
Evite quando: você não quer que o sabor apareça (no virgem)
Curiosidade de gôndola: muita confusão acontece aqui. “Coco” não é tudo igual: virgem e refinado se comportam diferente no fogo.
Dica caseira: se a ideia é fritar, prefira o refinado. Se a ideia é aroma, use o virgem fora do calor alto.
Ghee (manteiga clarificada)
Ponto de fumaça: ~250°C
Sabor: amanteigado, elegante
Melhor para: grelhar; saltear; dar sabor sem queimar tão cedo quanto manteiga comum
Evite quando: você precisa de neutralidade total
Curiosidade de gôndola: por não ter os sólidos do leite, aguenta mais calor do que manteiga comum e entrega sabor.
Dica caseira: ótima para ovos, legumes e carnes na frigideira. Só cuidado com excesso de fogo e respingos.
Banha (porco)
Ponto de fumaça: ~190°C
Sabor: característico
Melhor para: massas; frituras tradicionais; refogados com assinatura de sabor
Evite quando: o prato precisa ser absolutamente neutro
Curiosidade de gôndola: em algumas cozinhas, banha é técnica e tradição. Em outras, é escolha de perfil sensorial.
Dica caseira: use com critério e atenção ao aroma no ambiente. Em fritura, controle temperatura como qualquer outra gordura.
Sebo bovino (tallow)
Ponto de fumaça: 210–250°C (varia)
Sabor: presente, “carnudo”
Melhor para: batatas e frituras que pedem textura; grelhar; perfis rústicos
Evite quando: o público não aceita sabor residual de gordura animal
Curiosidade de gôndola: muita gente ama a textura que o sebo dá. Em operação, exige padrão de armazenamento e cuidado com odor.
Dica caseira: funciona muito bem para batatas, mas o cheiro pode marcar. Ventilação e porção pequena ajudam.
Regras de ouro da fritura
- Trabalhe na faixa certa (160–180°C).
Temperatura baixa encharca e aumenta absorção. Alta demais queima por fora, cru por dentro, e degrada o óleo mais rápido. - Óleo com ponto de fumaça alto ajuda, mas não resolve erro de operação.
Se o óleo está sempre fumando, o problema é temperatura e rotina, não “qual óleo”. - Filtragem e limpeza mudam o jogo.
Resíduos queimados aceleram a degradação. Uma operação com filtragem e troca programada pode render mais, com melhor padrão. - Aprenda “a ler” o óleo.
Sinais clássicos: escurecimento forte, odor ruim, espuma persistente, fumaça precoce. A cartilha para bares e restaurantes é clara: óleo superaquecido vira risco real. - Segurança: óleo quente não se apaga com água.
Em cozinha profissional, isso deveria estar no treinamento de todo mundo. Incêndio com óleo exige técnica e equipamento correto.
Dica caseira: se você frita em casa sem termômetro, faça o básico: não deixe fumegar, não encha demais a panela e mantenha tampa e extintor adequado em mente. Cozinhar é prazer, mas também é física.
Depois que cozinhou: o destino certo do óleo usado
O melhor óleo do mundo vira problema quando vai para a pia. Óleo e gordura entopem tubulação, dão mau cheiro, atraem pragas e poluem quando chegam ao meio ambiente.
Rotina simples:
- Deixe o óleo esfriar.
- Coe se quiser reduzir resíduos.
- Armazene em recipiente fechado.
- Entregue em um ponto de coleta oficial ou chame a empresa de reciclagem legalizada.
Ponto importante: cozinha profissional não pode tratar óleo usado como detalhe operacional. Destinar corretamente é parte da higiene, gestão e reputação do negócio, mas a diferença real está no “depois”: reciclar e comprovar. Faça do descarte uma rotina com rastreabilidade e guarde o certificado/comprovante de destinação correta, porque ele fecha o ciclo da economia circular e coloca a sua operação no lado certo da história.
Em BH e região metropolitana, a Óleo Verde Coleta e Reciclagem é o parceiro autorizado para retirar o óleo da sua cozinha e colocar no caminho certo, com registro do processo.
Fontes
- ANVISA – Informe Técnico nº 11 (uso e descarte de óleos e gorduras em frituras).
- MAPA – Portaria 795/1993 (definições de ponto de fumaça e ponto de fulgor).
- ABRASEL – Cartilha “Gestão do óleo de fritura” (temperatura 160–180°C, ponto de fumaça, segurança e boas práticas).
- Guia Michelin (explicação e categorização de óleos por ponto de fumaça e usos).
- UFU – material técnico sobre refino e relação entre ácidos graxos livres e ponto de fumaça.
- Instituto Adolfo Lutz / literatura técnica sobre degradação em óleos de fritura e referência ao Informe Técnico nº 11.


