saf

A multa da Anac não produzirá uma gota de SAF

Penalizar as companhias aéreas pode acelerar a demanda, mas a descarbonização só sairá do papel quando o Brasil estruturar a coleta, a qualidade e a rastreabilidade das matérias-primas residuais.

Por Rodolpho Mares, CEO da Óleo Verde Coleta e Reciclagem de Óleo de Cozinha Usado

A Agência Nacional de Aviação Civil colocou em consulta pública uma proposta que prevê multa de R$ 750 por tonelada de CO₂ que as empresas aéreas deixarem de reduzir no âmbito do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, o ProBioQAV.

A notícia naturalmente conduz o debate para as companhias aéreas. Mas, para quem trabalha diariamente com a recuperação de resíduos, a discussão começa muito antes da pista de decolagem.

Nenhuma política de biocombustíveis se sustenta apenas com metas, refinarias e penalidades. Ela depende de uma cadeia capaz de localizar matérias-primas, coletá-las com regularidade, controlar sua qualidade, registrar sua origem e encaminhá-las para processamento industrial adequado.

É nesse ponto que empresas de coleta e reciclagem, como a Óleo Verde, deixam de ser vistas apenas como transportadoras de resíduos e passam a ser reconhecidas como parte da infraestrutura da transição energética.

O que está sendo proposto pela Anac

Criado pela Lei do Combustível do Futuro, o ProBioQAV determina que os operadores aéreos nacionais reduzam as emissões dos voos domésticos em 1% a partir de 2027. A meta permanece em 1% em 2028 e aumenta gradualmente até chegar a 10% em 2037.

A regulamentação não estabelece simplesmente um percentual fixo de SAF a ser misturado ao querosene de aviação. A obrigação é medida pela redução efetiva das emissões. Portanto, a quantidade necessária de combustível sustentável dependerá da intensidade de carbono de cada produto e de sua respectiva cadeia de produção.

Na proposta submetida à consulta pública, operadores com emissões inferiores a 10 mil toneladas de CO₂ por ano ficariam dispensados. Uma estimativa preliminar mencionava 12 empresas abrangidas. A Análise de Impacto Regulatório mais recente, baseada nas operações de 2024, calcula 13 operadores, responsáveis por aproximadamente 99% das emissões domésticas avaliadas.

A multa de R$ 750 não funcionaria como autorização para poluir. A companhia que não alcançar sua meta teria de pagar a penalidade e manter a obrigação pendente para o ciclo seguinte. Pelas estimativas utilizadas pela Anac, o custo de reduzir uma tonelada de CO₂ com SAF estaria entre R$ 3,3 mil e R$ 3,4 mil. Somados multa e cumprimento posterior, o descumprimento poderia representar aproximadamente R$ 4,15 mil por tonelada.

A mensagem regulatória é objetiva: adiar a descarbonização não deve ser economicamente mais vantajoso do que realizá-la.

Óleo de cozinha usado: matéria-prima possível, não passe livre

O combustível sustentável de aviação pode ser produzido por diferentes rotas tecnológicas e a partir de diferentes matérias-primas. Entre elas está o óleo de cozinha usado, reconhecido internacionalmente como insumo possível para a rota HEFA, processo industrial que converte óleos e gorduras em hidrocarbonetos renováveis.

Isso não significa que todo óleo recolhido possa ser automaticamente transformado em SAF.

Depois de coletado, o material ainda precisa atender às exigências técnicas da indústria, passar por preparação e processamento e integrar uma cadeia certificada. Água, restos de alimentos, mistura com outras substâncias, falhas de armazenamento e ausência de informações sobre a origem podem reduzir sua qualidade ou impedir determinados aproveitamentos.

Há uma distinção essencial: o óleo usado não é SAF. Ele é uma matéria-prima potencial. Seu valor ambiental e industrial depende de como foi separado, armazenado, coletado, transportado, tratado e documentado.

A própria metodologia de avaliação do ciclo de vida adotada internacionalmente considera as emissões relacionadas à coleta, ao processamento e ao transporte do óleo residual. Isso mostra que a eficiência ambiental não nasce apenas dentro da usina. Ela começa no estabelecimento que separa o resíduo e continua na rota que o retira.

Valorizar energeticamente um resíduo, entretanto, não significa encaminhá-lo indiscriminadamente para uma única finalidade. Óleos residuais, biomassa, frações orgânicas, biogás, biometano e combustíveis sintéticos podem ocupar funções diferentes e complementares na economia de baixo carbono. A destinação mais adequada dependerá da composição do material, da escala disponível, da distância até o processamento, da maturidade tecnológica e do desempenho ambiental verificado ao longo de todo o ciclo de vida.

A transição energética, portanto, não terá uma rota vencedora capaz de resolver tudo. Terá um portfólio de soluções. Biodiesel, diesel verde, SAF, biometano e outros combustíveis renováveis atenderão necessidades distintas, disputando algumas matérias-primas e compartilhando outras. O desafio estratégico será direcionar cada resíduo para a aplicação em que produza maior benefício ambiental e econômico, sem perder rastreabilidade, eficiência logística ou segurança técnica.

A rastreabilidade começa no primeiro litro

Restaurantes, bares, lanchonetes, hotéis, cozinhas industriais, condomínios e instituições formam uma rede descentralizada de geração. Transformar milhares de pequenos volumes dispersos em matéria-prima industrial exige organização.

É necessário orientar os geradores, fornecer recipientes adequados, evitar contaminações, planejar rotas, registrar volumes, verificar a qualidade recebida, consolidar cargas e comprovar sua destinação. Quando uma dessas etapas falha, perde-se eficiência, qualidade e confiança.

Esse trabalho costuma permanecer invisível, mas é ele que conecta o resíduo gerado em uma cozinha à indústria de biocombustíveis. A coleta profissional transforma um passivo ambiental pulverizado em um fluxo aproveitável pela economia circular.

Com a expansão das políticas de descarbonização, o mercado deverá valorizar não apenas a disponibilidade de matéria-prima, mas a consistência das informações que a acompanham. Volume sem origem comprovável pode ter utilidade limitada em cadeias que precisam demonstrar redução de emissões e impedir dupla contagem de benefícios ambientais.

O papel estratégico da Óleo Verde

Na Óleo Verde, entendemos que coletar óleo de cozinha usado é administrar o início de uma cadeia ambiental e energética.

Nossa atuação em Belo Horizonte e na Região Metropolitana busca conectar geradores, ecopontos, instituições e parceiros industriais por meio de coleta organizada, controle operacional e destinação para reciclagem. Atualmente, o óleo recuperado pode abastecer cadeias como a produção de biodiesel e sabão biodegradável, conforme as condições do material e a destinação contratada.

Não produzimos SAF e não afirmamos que todo óleo coletado terá esse destino. Nosso papel estratégico está em algo anterior e indispensável: evitar o descarte inadequado e preparar uma matéria-prima residual para que possa ingressar, com qualidade e informação, nas rotas industriais tecnicamente compatíveis.

O avanço do ProBioQAV reforça uma convicção: a transição energética não será construída apenas por grandes plantas industriais. Ela dependerá também de empresas locais capazes de executar bem o primeiro quilômetro da cadeia.

Para estabelecimentos e instituições que geram óleo de forma recorrente, o caminho é a coleta programada, conforme as condições operacionais. Para pequenos volumes, a entrega voluntária em ecopontos é a alternativa adequada. Em ambos os casos, o princípio é o mesmo: separar corretamente, armazenar com segurança e escolher uma destinação responsável e rastreável.

Antes de abastecer uma aeronave com combustível sustentável, será preciso cuidar do óleo que ainda está na cozinha. É ali, longe dos aeroportos e perto da vida cotidiana, que uma parte decisiva da transição começa.

Fontes consultadas

Screenshot

Onde encontrar um ecoponto para descartar óleo de cozinha usado?

Se você gera pequenas quantidades de óleo de cozinha usado em casa, a forma mais prática e ambientalmente adequada de fazer o descarte é utilizar um ecoponto parceiro. Basta armazenar o óleo já frio em uma garrafa PET ou outro recipiente bem fechado e levá-lo ao ponto de entrega mais próximo. Assim, o resíduo recebe a destinação correta e pode ser reciclado.


Procure o ecoponto mais próximo de você

A Óleo Verde conta com uma rede de ecopontos parceiros para facilitar o descarte correto do óleo de cozinha usado por moradores, condomínios e pequenos geradores.

Acesse a lista completa de ecopontos e encontre o ponto de entrega mais próximo da sua região.

Consultar ecopontos da Óleo Verde

qual-o-valor-do-oleo-de-cozinha-usado-empresa

Quem compra óleo de cozinha usado? E quanto ele vale?

Empresas licenciadas podem comprar óleo de cozinha usado, mas o valor pago depende da quantidade, da qualidade do óleo (volume de água e resíduos misturados), da localização do gerador e da logística da coleta. Desconfie de ofertas muito acima da média do mercado: antes de vender, verifique se a empresa possui licença para atuar e se fornece certificado de coleta e destinação, documento que comprova o encaminhamento ambientalmente adequado do resíduo. Mais importante do que receber alguns centavos a mais por litro é ter segurança, rastreabilidade e conformidade na destinação do óleo usado.

Quer saber se o seu óleo pode ser comercializado?

Se o seu restaurante, bar, lanchonete, padaria, hotel ou cozinha industrial gera óleo de cozinha usado, a Óleo Verde pode avaliar o volume disponível, informar as condições de atendimento e emitir certificado de coleta e destinação, oferecendo mais segurança para o seu estabelecimento.

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp e solicite uma avaliação para a coleta do seu óleo usado.

Solicitar avaliação para coleta de óleo usado

80fcf1a6b2

Como armazenar óleo de cozinha usado até o dia da coleta?

O óleo de cozinha usado deve ser armazenado somente depois de frio, em recipientes limpos, resistentes e bem fechados, evitando vazamentos e a entrada de água ou restos de alimentos. Mantenha o recipiente em local seguro até a coleta ou a entrega em um ecoponto. O armazenamento correto evita pragas e roedores, facilita a reciclagem e torna a coleta mais segura e eficiente.


Precisa de orientação sobre o armazenamento?

Se o seu estabelecimento gera óleo de cozinha usado e tem dúvidas sobre a forma correta de armazená-lo até a coleta, a equipe da Óleo Verde pode orientar a melhor solução para a sua operação.

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp e tire suas dúvidas sobre armazenamento e coleta de óleo usado.

Solicitar orientação para coleta de óleo usado